Saturday, June 24, 2006

Eu tenho um gato que me ama e nenhum respeito por mim mesmo. Parece que não há muito espaço para o erro nesse novo século, em que ser solitário e auto-destrutivo perdeu absolutamente todo o charme. Só o que me sobra é uma turbulência desconfortável no estomago, o flagelo da bebida de ontem, que traz com ela culpa e vergonha de atos despudorados, que em dois meses não serão mais nada.

Cecília tinha 48 anos e fazia cerâmica. Foi o que fiquei sabendo enquanto brincava de beat, aprendendo com a noite, o frio e o concreto. Anomia, huh? A inabalável sensação de que tudo está errado, desde o início. A curva errada que provou por A mais B que tudo isso é um trem em altíssima velocidade.

Be kind to me, or treat me mean. I’ll make the most of it, I’m an extrordinary machine.

Sento-me no banco confortável, então, esperando o muro chegar, sendo o que sou sem pestanejar, acho, porque sei que jamais serei como vocês.

Wednesday, June 14, 2006

Eu tinha mais ou menos 19 anos quando percebi que era uma pessoa horrível e não tinha nenhum amigo. Desse dia em diante decidi que não ligaria mais para as pessoas que ainda me toleravam. Não tentaria contato social algum, nunca mais. Ative-me a uma rotina de estudo e trabalho, equilibrando com exercícios físicos.

Entendi que uma pessoa como eu pode escolher entre 2 destinos. Poderia tentar me tornar socialmente ativo, e portanto um estorvo constante a todos que não gostavam de mim (e um incomodo maior ainda aqueles que ainda tentavam me manter ignorante da minha condição), ou poderia tornar-me um hermitão moderno buscando companhia na arte e na literatura. Talvez um dia chegasse a ser visto como algo especial ou desenvolveria habilidades acima do normal.

Depois de tentar o primeiro durante alguns meses, resolvi apelar para a única pessoa que não poderia se livrar de mim, que era, óbviamente, eu mesmo. E foi agradável. Quando não tinha mais ninguém por perto, até que eu era um cara legal.

No começo a solidão me incomodova e eu sentia vontade de reatar os laços, mas com o tempo percebi quanta frustração e humilhação me economizava ignorar o resto do mundo. Sabia estar no lugar que me cabia o tempo todo, em meu quarto, cercado por papéis e livros. O meu mundo. E o meu abdomem estava começando a ficar durinho.

A partir de então tive uma vida sem luxo mas rica em imaginação e escrevi mais de 10 livros . nenhum deles publicados, claro. Mas pouco importa. Também não deixei herdeiros, porém plantei diversas árvores e a única coisa de que me arrependo é não ter sido mais simpático com a molecada aqui da rua.Talvez eles parassem de tacar pedras nos vidros ou usar drogas no meu porão.

Me conheço melhor do que provavelmente qualquer pessoa no mundo. Sou um verdadeiro monge. Agora chegou a hora então de abandonar o cíclo. De ir de uma vez para não voltar.

Quando encontrarem essa carta, já estarei longe daqui, em algum outro plano. Calculo que os 90 gatos ficarão famintos em menos de 2 dias. Em uma semana, provavelmente metade da minha carcaça mundana já terá sido devorada, mas caso alguém se dê o trabalho de me cremar, por favor jogar as cinzas no atlântico, durante o pôr-do-sol.

Wednesday, June 07, 2006

Levanto, lavo o rosto e me barbeio o mais rente que der, tomando cuidado com as quinas e os cantos. Penteio, corto, ajeito, botando os pedaços no lugar. Jornal, pão, gato, vó, porta, portaria e finalmente, rua.

O vento me saúda com as folhas brincando ladeira abaixo e espero só um instante antes de deixar o dia chegar. Deixo o sol entrar, os cheiros e sons. Pássaros e serras automáticas, farfalhar nas copas com roncos de motor e passos, sempre dois por segundo, de quem vai sem pressa de chegar e sem querer ficar.

Sobe e desce o peito, conformado e ensaio um sorriso. "- Chave, carteira, celular e óculos", mantra dos esquecidos, e no instante seguinte já fui, aos passos, em marcha, assistir desenrolar o dia.

sempre dois por segundo


7 de junho de 2006, Rio de Janeiro.

Tuesday, June 06, 2006

Verdade sobre as coisas

Incrível todo esse esperar
que não se justifica.

Insensível de tanto chorar
que nada se modifica.

Seu hoje é todo amanhã
que nunca vai chegar.

Sunday, May 28, 2006

O frio na barriga de quem sabe estar só
nesta grandesíssima bola de superlativos
é o que herdou o rapaz que pensa muito.

Através de uma longa concatenação de silogismos
ele percebeu que desviou de tudo que era belo e bom
em nome de uma sacola de ideais que pouco tinham de concreto

e chora quando se confessa ao mundo que já o conhece
e treme na cama por medo de ter que ser ele mesmo
amanhã, de novo, mais uma e outra vez.

Mas não é que ele conseguiu o queria,
saber tudo sobre o porque dele não ter o que quer?

Que conquista!

Deu a volta ao mundo pra sentar feliz na estaca zero
Entendeu que a bola gira por sí
e não há motivo bom o suficiente para ir a lugar nenhum
quando se está onde deveras está.

Sunday, May 21, 2006

Ela não sabe mais o que sentir
Ora quer chorar depois não pára de rir
Engasga no soluço áspero do choro
ou solta um riso bobo com um pouco de gozo.

Então, pega pela mão e mostra como ser melhor
ensina que o nublado de ontem e o sol de amanhã
estão separados pela coragem de achar a boa-aventurança
do agir agora, pelamordedeus, enquanto há tempo.

Nunca é tarde pra se por as flores nos cabelos da menina
Nunca é tarde pra se viver como se imagina.

Sunday, May 14, 2006

Não canto mais.
só canta quem ama
e ah, quanto tempo faz?